quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

#84 - REGRESSO, Maria Manuela Couto Viana

O Poeta acordou de mãos vazias sobre o peito,
sem névoas de fuga no olhar espantado.
Lançaram-lhe urtigas nos linhos do leito
e em todos os frutos sabor a pecado.

Fechar-se de novo no armário, no escuro?
A esperar mãos boas e lenços macios?
Quem traga nos lábios violados segredos,
varrendo os espectros de angústias e medos
nos olhos sombrios?

Mas no armário havia um cheiro de trevas,
um cheiro de infância,
um cheiro de choro chorado baixinho,
de sonho e silêncio,
de bruma e distância.

No drama e na farsa, o Poeta exibiu-se.
(Importa-lhe, agora, quem o vaia ou exalta?)
No espelho manchado de sol e poeira,
assim que apagaram a luz da ribalta,
o Poeta busca a face verdadeira.

Deixem-no sozinho, com olhos sombrios,
sofrer esse instante sem sonho e sem venda,
não venham mãos boas nem lenços macios:
Que ninguém o entenda! Que ninguém o entenda!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

#83 - "Todo o Verão tem a sua sombra", Fernando Jorge Fabião

Todo o Verão tem a sua sombra
a sua pequena morte
homens lentos nas adegas
(poços de frescura)
imaginam ofícios sublimes
presságios
pequenas conjuras

Todo o Verão tem o seu assombro
paisagens altas
onde principio a escrever
(num silêncio de sinos)
vocábulos escassos, dissonâncias
numa saudade de rosas e luz estilhaçada.


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

#82 - "Escrever, tecer um anel", Fernando Jorge Fabião


Escrever, tecer um anel
em redor das coisas
A tinta prolonga
o sangue
consome o saber das sílabas

Com um pé na norma
e outro na errância
navego no coração do vento

Respiro no milagre
dos gestos ínfimos e graves

Faço de espanto
a regra e o sinal

Talvez adormeça
encostado ao azul
na mais pura ignorância da morte

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

#81 - POETRY: THE WORD I AM THINKING OF, Carlos Ávila

& não será
a poesia
(femme fatale)
apenas uma palavra
dentro de outra palavra
que não quer dizer nada
& não será
a poesia
(femme publique)
apenas a migalha
dentro de outra migalha:
fogo de palha
& não será
a poesia
(femme de chambre)
apenas o ar assoprado
por um aloprado
no ouvido do olvido
& não será
a poesia
(femme grosse)
apenas o resto
de um almoço indigesto
entre convivas do inferno
?

o que será
(une femme: infâme)
será

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

#80 - VERSOS QUE EU FAÇO, Álvaro Feijó

Escrevo, muita vez, molhando a pena
no amargo fel da minha própria dor,
versos gritantes em que ponho em cena
fantasmas de ilusões, versos sem cor.

De rubro e negro, pela dor absortos,
como notas vibrantes de clarim,
finda a batalha, abençoando os mortos,
são os versos que eu faço para mim.

Mas outros há, rebeldes como potros,
onde a graça anda imersa, estua e ri,
feitos prò mundo rir, neles, dos outros,
quando, afinal, neles se ri de si.

Outros, que mal escrevo e andam dispersos
na voz-cristal das moças do lugar,
incontestavelmente os melhores versos
que faço, porque neles sei pintar
verdes de esperança, azuis de céu da calma
que dentro em nós sorri,
rubros de coração, vermelhos de alma,
esses que mal escrevo e andam dispersos
na voz-cristal do povo,
                                        são os versos
que eu faço para Ti!

                                                                                                                                                                                                      Outubro de 1937

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

#79 - PRELÚDIO, Sidónio Muralha

A minha Poesia é uma árvore cheia de frutos
que um sol de tragédia amadurece;
mas eu não os arranco nem procuro:
-- o meu sol de tragédia aquece, aquece,
e o fruto cai de maduro.

No resto, sou empregado de escritório
que não procura desvendar abismos,
e passa o dia (glorioso ou inglório)
a somar algarismos...

A minha Poesia é uma árvore cheia de frutos
que um sol de tragédia amadurece;

mas eu não os arranco nem procuro:
-- sei a miséria da estrada percorrida;
o meu sol de tragédia aquece, aquece,

-- e o fruto cai de maduro
no chão da minha vida.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

#78 - TUDO, Saul Dias

Um poema
quase sem palavras
Um esquema
de indefenidos traços
O ecoar de um som
talvez nunca vibrado.

Um retrato
feito com o nada disto,
com tudo isto.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

#77 - A ROSA IRREVELADA, Domingos Carvalho da Silva

Correi o mundo e procurai palavras novas para um poema.
Dos oceanos trazei nomes de peixes e remotas ilhas,
tranças de virgens, seios afogados,
mas
antes de tudo palavras para um poema.

Caminhai nas trevas em busca de uma rosa.
Colhei nos cardos a flor menosprezada.
Buscai no mar os líquenes, as esponjas,
trazei convosco pérolas,
peixes negros e plantas submarinas.

Trazei a náufraga de olhos devorados
por gaivotas. A náufraga de seios como luas
entre ciprestes de algas. A náufraga
de coxas como praias
onde o desejo espuma e desfalece.

Não procureis anelos e ternura
nem um pássaro de canto engaiolado.
Quero-vos noite escura, corpo escuro
de mulher em silêncio, rosa inviolável.

Trazei da noite palavras para um poema.
A irrevelada morte para um poema.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

#76 - "Ela, a Poesia, hoje,", Reinaldo Ferreira [F.º]

Ela, a Poesia, hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.

Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
-- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!

Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...

Fala no imperativo,
E tem por vocativo
-- Irmão! Irmãos!

Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

#75 - O POETA, Papiniano Carlos

Seara e nuvem, barco e melodia
no coração das feras e das aves,
trazes a aurora em tuas mãos suaves
abrindo a noite, barco e melodia.

Lírio solar, estrada e cotovia
jamais sonhada pelas próprias aves,
a morte e a vida, a porta e as chaves
tudo em ti se confunde e anuncia.

Sonharam-te os abismos e os morcegos
volvem-se em arcanjos e vêm, cegos
quando os fitas, pousar na tua mão.

Só em ti a beleza encontra a forma.

Cantas! e logo a noite se transforma
no dia que faltava à Criação.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

#74 - ARTE POÉTICA, António Neto

Versos
Os que se escrevem com o pulso
Quando nos cortam a mão
...E só então...
Os que se datam com não-datas de calendário
Mas datas de mortes ou de partos;
O tempo que leva uma criança a nascer
Um cadáver a apodrecer
Não são tempos que admitam rótulo
De anos e mês e hora
Poesia
Só a da agonia
Que mata ou cria
Poemas
Só este
E os que escrevi e não escrevi quando morreste

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

#73 - ARTE POÉTICA, Sophia de Mello Breyner Andresen

A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão.
 
Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

#72 - VENDETA, Corsino Fortes

Um verso escapa
Descaradamente
Do poema que escrevo.

Um rumor longínquo
Segreda-me
Que ele espezinha
Os companheiros
Da minha caravana.

De repente
Ele projecta-se
No «écran» do meu espanto
Com garras e lábios
Manchados de sangue.

Nos meus olhos há imagens feridas.
E numa voz cortante
Blasfema

Sou a dor
       o sangue
       a vítima
Dos teus crimes impunes!
Vingo-te à minha maneira.

Renego-te
Renegado!...

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

#71 - de QUARTAS MORADAS, António Franco Alexandre

O múltiplo sentido das permutações
do tempo que o poema permite
assombra. Uma sequência de imagens
simples, e finalmente convencionais,
a rápida sucessão das unidades dinâmicas do verbo,
combina as três perspectivas

que os filósofos dizem do eterno, do instante, e
do perene. A terra mesma se transforma,
a sombra das nuvens ao voar sobre as casas
dá repouso e abrigo à obra das nossas mãos.
Passam os anos como os dias, o dia de agora
é inteiro e completo como outrora.

Lendo, já sei, talvez nada aconteça:
vento nas folhas, água, uma estrela que cai.
Comendo a sopa quente diante da tv
a ordem da história e da sociedade não está
prevista no menu. Ainda assim são estas imagens voláteis
a razão do poema, enquanto dura o sol.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

#70 - MORDAÇA, Sebastião da Gama

Puseram-lhe na boca uma mordaça...

Mas o Poeta era Poeta
e tinha que falar.

Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue,
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.

Porém, não era já mordaça:

-- Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça, o tinham querido calar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

#69 - "Que fazes tu, poeta? Diz! -- Eu canto." (Rainer Maria Rilke)

Que fazes tu, poeta? Diz! -- Eu canto.
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas, como aceitas? -- Canto.
E que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta? -- Canto.
De onde te vem direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? -- Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? -- Canto.

(tradução de Jorge de Sena)

domingo, 4 de setembro de 2016

#68 - "bates à porta", Carlos Nogueira Fino

bates à porta
mil vezes bates a essa porta com a voz em sangue
enquanto te encandeia a luz feroz da inocência
a iluminar-te os dedos
contra a grande incógnita da porta

o que balbucias não é ainda cântico
mas a nua lâmina onde aguardas
as primeiras estrofes ainda sem palavras

o balanço dos gonzos
o entreabrir dos lábios
o negro puro
as pupilas enormes
o remoínho ubíquo na pele e na escuridão devassada
a interrogação que lateja

quando a porta se abre
é que já pouco importa
a eternidade ficou toda e para sempre naquela pulsação
desordenada

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

#67 - A MAGNÓLIA, Luiza Neto Jorge

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me à forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria -- na metáfora --
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.


#91 - HOMERO, Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrever o poema como um boi lavra o campo Sem que tropece no metro o pensamento Sem que nada seja reduzido ou exilado Sem que nada separ...