quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

#84 - REGRESSO, Maria Manuela Couto Viana

O Poeta acordou de mãos vazias sobre o peito,
sem névoas de fuga no olhar espantado.
Lançaram-lhe urtigas nos linhos do leito
e em todos os frutos sabor a pecado.

Fechar-se de novo no armário, no escuro?
A esperar mãos boas e lenços macios?
Quem traga nos lábios violados segredos,
varrendo os espectros de angústias e medos
nos olhos sombrios?

Mas no armário havia um cheiro de trevas,
um cheiro de infância,
um cheiro de choro chorado baixinho,
de sonho e silêncio,
de bruma e distância.

No drama e na farsa, o Poeta exibiu-se.
(Importa-lhe, agora, quem o vaia ou exalta?)
No espelho manchado de sol e poeira,
assim que apagaram a luz da ribalta,
o Poeta busca a face verdadeira.

Deixem-no sozinho, com olhos sombrios,
sofrer esse instante sem sonho e sem venda,
não venham mãos boas nem lenços macios:
Que ninguém o entenda! Que ninguém o entenda!

#91 - HOMERO, Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrever o poema como um boi lavra o campo Sem que tropece no metro o pensamento Sem que nada seja reduzido ou exilado Sem que nada separ...