terça-feira, 21 de abril de 2015

#66 - ISSO, José Ricardo Nunes

(e. e. cummings)

"Isso que o realejo toca",
não a música, apenas
isso, a intensidade abstracta

de uma linguagem condenada
pela amplitude do sentido,
mas apta para garantir

um pouco de paz e suster
as vozes que fluem no vazio,
isso que guardas,

desde que tens rosto,
com sorte poderás ler
ou arrancar de ti.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

#65 -- POÉTICA, Cassiano Ricardo

1

Que é a Poesia?
                        uma ilha
                        cercada
             de palavras
                        por todos
                        os lados.


2

Que é o Poeta?
                       um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                       Um homem
             que tem fome
             como qualquer outro
                       homem.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

#64 - NATAL À BEIRA-RIO, David Mourão-Ferreira

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

quarta-feira, 8 de abril de 2015

#63 - NOVA POESIA, Aguinaldo França

(Ao Amílcar Cabral)

Um dia, misteriosamente,
   A Poesia perdeu-se.
   E muita gente
   Andou por montes e vales
   Buscando-a raivosamente.

   Encostas inacessíveis
   Foram galgadas em vão,
   Gritos e mãos para os céus
   Lágrimas, sangue e suor...
   E a própria vida
   Foi também oferecida...
   Mas a Poesia estava
   Irremediavelmente perdida.

   Os homens gritaram raivas:
   -- Não sabiam que fazer...

   Mas, de cada peito contrito,
   De cada lágrima ou grito,
   De cada gesto de dor,
   De todo o sangue ou suor
   Discretamente nascia
   Uma nova Poesia.

Aguinaldo França

segunda-feira, 6 de abril de 2015

#62 - ALL OR NOTHING AT ALL, Frederico Barbosa

Tudo ou todo nada,
pedra ou furo d'água,
feito cada palavra,
lança, dardo, ferida,
em cheio nada.

De nada em nada,
o se-dizer do tudo,
feito risco na água,
onda, contorno,
reflexo de nada.

Nada feito nada,
no poema
naõ há termo meio,
meio-amor, meia palavra.

Do sem
sentido intenso
se faz um tudo atento,
feito a palavra
em cantada,

nada
feito
nada.

#91 - HOMERO, Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrever o poema como um boi lavra o campo Sem que tropece no metro o pensamento Sem que nada seja reduzido ou exilado Sem que nada separ...