sábado, 14 de janeiro de 2017
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
#87 - UM BARCO, Gastão Cruz
Corre um barco no sulco do canal
mais longínquo da ria; enquanto passo
para o poema o seu percurso, faço
morrer a imagem branca que imortal
há pouco parecia; agora o espaço,
que da mancha mortal, ponto de cal,
livre ficou, um troço é afinal
do ramo de água que na tarde traço,
a sucessão olhando de um e e outro
avulso braço da laguna fria,
e desfaço, no verso onde esse barco
naufragou quando quase ainda o via,
correndo e já ausente, breve potro,
na distância da água vivo rastro
mais longínquo da ria; enquanto passo
para o poema o seu percurso, faço
morrer a imagem branca que imortal
há pouco parecia; agora o espaço,
que da mancha mortal, ponto de cal,
livre ficou, um troço é afinal
do ramo de água que na tarde traço,
a sucessão olhando de um e e outro
avulso braço da laguna fria,
e desfaço, no verso onde esse barco
naufragou quando quase ainda o via,
correndo e já ausente, breve potro,
na distância da água vivo rastro
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
#86 - CANÇÃO DA NÉVOA, Teixeira de Pascoais
Tristezas leva-as o vento;
Vão no vento; andam no ar...
Anda a espuma, à tona da água,
E à flor da noite o luar...
Vindes dum peito que sofre?
De uma folha a estiolar?
Donde vindes, donde vindes,
Tristezas que andais, no ar?
Eflúvios, emanações,
Saídas da terra e do mar,
Sois nevoeiros de lágrimas
Que o vento espalha, no ar...
Suspiros brandos e leves
De avezinhas a expirar;
Ermas sombras de canções,
Que ficaram por cantar!
Brancas tristezas subindo
Das fontes, que vão secar!
E das sombras que, à noitinha,
Ouve a gente murmurar.
Saudades, melancolias,
Que o Poeta vai aspirar...
Melancolias e mágoas,
Que são almas a voar.
E o Poeta solitário,
Fica a cismar, a cismar...
Todo embebido em tristezas,
Levadas na onda do ar...
E o Poeta se transfigura,
É a voz do mundo a falar!
E aquela voz também vai,
No vento que anda no ar...
Vão no vento; andam no ar...
Anda a espuma, à tona da água,
E à flor da noite o luar...
Vindes dum peito que sofre?
De uma folha a estiolar?
Donde vindes, donde vindes,
Tristezas que andais, no ar?
Eflúvios, emanações,
Saídas da terra e do mar,
Sois nevoeiros de lágrimas
Que o vento espalha, no ar...
Suspiros brandos e leves
De avezinhas a expirar;
Ermas sombras de canções,
Que ficaram por cantar!
Brancas tristezas subindo
Das fontes, que vão secar!
E das sombras que, à noitinha,
Ouve a gente murmurar.
Saudades, melancolias,
Que o Poeta vai aspirar...
Melancolias e mágoas,
Que são almas a voar.
E o Poeta solitário,
Fica a cismar, a cismar...
Todo embebido em tristezas,
Levadas na onda do ar...
E o Poeta se transfigura,
É a voz do mundo a falar!
E aquela voz também vai,
No vento que anda no ar...
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
#85 - OS POETAS SÃO P'RA DEVORAR À COLHERADA, Dick Hard
Os poetas comem-se uns aos outros
na ânsia do martelo de Thor
das vísceras poéticas do potros
do soneto em dó maior
Os poetas são p'ra devorar à colherada
trincar as palavras com desdém
a poesia não tem hora marcada
não se compra ao quilo ou ao vintém
Trituram-se os versos sem piedade
as estrofes chovem nos rios a sul do norte
um vate é animal de soledade
sempre em busca de si até à morte
Os poetas não são mais que canibais
comem-se a eles e não sobra nada
diluem-se no fervor dos bacanais
apagam-se a sonhar co'a boa fada.
na ânsia do martelo de Thor
das vísceras poéticas do potros
do soneto em dó maior
Os poetas são p'ra devorar à colherada
trincar as palavras com desdém
a poesia não tem hora marcada
não se compra ao quilo ou ao vintém
Trituram-se os versos sem piedade
as estrofes chovem nos rios a sul do norte
um vate é animal de soledade
sempre em busca de si até à morte
Os poetas não são mais que canibais
comem-se a eles e não sobra nada
diluem-se no fervor dos bacanais
apagam-se a sonhar co'a boa fada.
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