É por acção de amor ao meu país
que te reclamo, ó necessário irmão,
velho Whitman da cinzenta mão,
para que, com teu apoio extraordinário,
verso a verso, matemos de raiz
Nixon, o presidente sanguinário.
Sobre a terra não há homem feliz,
ninguém trabalha bem no planeta
se em Washington respira o seu nariz.
Pedindo ao velho bardo que me invista,
os meus deveres assumo de poeta
armado do soneto terrorista,
porque devo ditar sem pena alguma
a sentença até agora nunca vista
de fuzilar um criminoso ingente
que apesar das suas viagens para a lua
já matou na terra tanta gente,
que até foge o papel e a pena se alevanta
ao escrever o nome do maldito,
do genocida, o da Casa Branca.
(tradução: Alexandre O'Neill)
domingo, 26 de outubro de 2014
#34- POUSIO, José Ricardo Nunes
Faz-me bem deixar
os poemas na secretária
por uns meses,
só família e corpo
e relatórios, projectos,
notas para a imprensa.
O ar do tempo revigora.
A linguagem faz-se rogada
e agarra-se aos objectos,
retira-lhe adjectivos.
O tempo vai transformando
os versos em mais coisas
que não reconheço,
meses depois, quando me sento
à secretária e volto a escrever
o poema de sempre.
os poemas na secretária
por uns meses,
só família e corpo
e relatórios, projectos,
notas para a imprensa.
O ar do tempo revigora.
A linguagem faz-se rogada
e agarra-se aos objectos,
retira-lhe adjectivos.
O tempo vai transformando
os versos em mais coisas
que não reconheço,
meses depois, quando me sento
à secretária e volto a escrever
o poema de sempre.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
#33 - INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS, David Mourão-Ferreira
Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.
domingo, 19 de outubro de 2014
#32 - NAMORO DE ALDEIA, Ana Luísa Amaral
Duas horas e meia da manhã:
o trabalho que espera sossegado,
o cansaço do fogo na lareira,
a caneta riscando e o cantar do galo
estremunhado
Deve pensar que são seis horas, este galo,
e o meu trabalho em sono, o fogo que me fala,
uma unha roída,
um cigarro fumado,
o café a fazer e o poema desfeito
em só cadência
Que tema é este sério a esta hora
breve da manhã, com o trabalho à espera
e o fascínio do fogo?
Deve pensar que possui tema, este poema
que não me evita e me namora ousadamente
a desoras na aldeia
O fogo estala e outro galo canta
e o meu trabalho enjoa sossegado
No romance parado do meu poema e eu,
o café já saiu, começou a chover
Escorrem gotas macias no telhado,
o fogo morre, o trabalho desperta
abrindo um olho lento
e o meu namorado parvo e tonto
carregado de imagens (e de outras coisas leve)
sai furtivo a desoras
Só deixou por roer
a unha do polegar
da minha mão direita
o trabalho que espera sossegado,
o cansaço do fogo na lareira,
a caneta riscando e o cantar do galo
estremunhado
Deve pensar que são seis horas, este galo,
e o meu trabalho em sono, o fogo que me fala,
uma unha roída,
um cigarro fumado,
o café a fazer e o poema desfeito
em só cadência
Que tema é este sério a esta hora
breve da manhã, com o trabalho à espera
e o fascínio do fogo?
Deve pensar que possui tema, este poema
que não me evita e me namora ousadamente
a desoras na aldeia
O fogo estala e outro galo canta
e o meu trabalho enjoa sossegado
No romance parado do meu poema e eu,
o café já saiu, começou a chover
Escorrem gotas macias no telhado,
o fogo morre, o trabalho desperta
abrindo um olho lento
e o meu namorado parvo e tonto
carregado de imagens (e de outras coisas leve)
sai furtivo a desoras
Só deixou por roer
a unha do polegar
da minha mão direita
sábado, 18 de outubro de 2014
#31 - LER ESCREVER, Liberto Cruz
Quatro fragmentos
1
Não escrevo para me ler,
Leio para me escrever.
2
Não vivo o que escrevo
Não escrevo o que vivo.
Escrever é outra
Vida viver.
3
Entre a página escrita
E a página a escrever,
Que leitura nos separa,
Que escrita nos aproxima?
4
Pela Vida é que vamos,
Não pela escrita que temos.
Lisboa, 1993
1
Não escrevo para me ler,
Leio para me escrever.
2
Não vivo o que escrevo
Não escrevo o que vivo.
Escrever é outra
Vida viver.
3
Entre a página escrita
E a página a escrever,
Que leitura nos separa,
Que escrita nos aproxima?
4
Pela Vida é que vamos,
Não pela escrita que temos.
Lisboa, 1993
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
#30 - ATHENE PARTHENON, Tomás de Figueiredo
Poeta de hoje vivo ainda a Atenas
das tradições homéricas, -- da lenda...
A minha fantasia -- tece-a a renda
feita de espuma das criações helenas.
Evoco as linhas nobres e serenas
de Bríleis junto a Aquiles -- numa tenda.
Não há breve dizer que eu não entenda
em suas gráceis, pastoris avenas.
Atleta como um grego -- sonho lutas.
Há na minha arte jónicas volutas,
-- acantos lanceolados como insídias...
E modelando as formas dum soneto
no mármore do Sonho predilecto,
a minha pena -- é um cinzel de Fídias!
Coimbra
1 9 2 3
das tradições homéricas, -- da lenda...
A minha fantasia -- tece-a a renda
feita de espuma das criações helenas.
Evoco as linhas nobres e serenas
de Bríleis junto a Aquiles -- numa tenda.
Não há breve dizer que eu não entenda
em suas gráceis, pastoris avenas.
Atleta como um grego -- sonho lutas.
Há na minha arte jónicas volutas,
-- acantos lanceolados como insídias...
E modelando as formas dum soneto
no mármore do Sonho predilecto,
a minha pena -- é um cinzel de Fídias!
Coimbra
1 9 2 3
terça-feira, 14 de outubro de 2014
#29 - de NOTAS PARA A REGULAMENTAÇÃO DO DISCURSO PRÓPRIO, Rui Knopfli
1.
Cabe num punho ou num bolso, este cabedal
ciosamente amealhado, mas puído já por usos
e abusos, irremediavelmente contaminado
pelas perversões da ignomínia ou da ignorância,
vez por outra remido, também, na lâmina
célere do mais acerado metal. Se, para brandi-lo,
ergo vacilante a mão, mais de cem fantasmas
antiquíssimos me cavalgam o pulso sobre
que inflecte a fragilidade calcificada
de séculos. Um movimento vai exauri-lo
sob o fardo, já outro lhe põe em risco
a quebradiça ligeireza. O verbo hesitar
lhe empresta o tónus correcto, no silêncio
respira, a sombra lhe dá corpo. Oferece,
por tal, essa aparência ilusória de ser
só chama, comburência sem combustível.
Podes tu, que apenas chegas e tudo ignoras
das traiçoeiras dificuldades experimentadas
nos lameiros que atolam o percurso
antes da pirâmide, proferir a primeira
palavra, como quem percute em festa
o cristal novo do sino alvissareiro.
Meu fendido, escuro bronze, roído
de musgos e cardenilho, apenas consente
a mágoa nocturna deste lamento a prumo.
Cabe num punho ou num bolso, este cabedal
ciosamente amealhado, mas puído já por usos
e abusos, irremediavelmente contaminado
pelas perversões da ignomínia ou da ignorância,
vez por outra remido, também, na lâmina
célere do mais acerado metal. Se, para brandi-lo,
ergo vacilante a mão, mais de cem fantasmas
antiquíssimos me cavalgam o pulso sobre
que inflecte a fragilidade calcificada
de séculos. Um movimento vai exauri-lo
sob o fardo, já outro lhe põe em risco
a quebradiça ligeireza. O verbo hesitar
lhe empresta o tónus correcto, no silêncio
respira, a sombra lhe dá corpo. Oferece,
por tal, essa aparência ilusória de ser
só chama, comburência sem combustível.
Podes tu, que apenas chegas e tudo ignoras
das traiçoeiras dificuldades experimentadas
nos lameiros que atolam o percurso
antes da pirâmide, proferir a primeira
palavra, como quem percute em festa
o cristal novo do sino alvissareiro.
Meu fendido, escuro bronze, roído
de musgos e cardenilho, apenas consente
a mágoa nocturna deste lamento a prumo.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
#28 - OS VERSOS, José Tolentino Mendonça
Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
#27 - MOTIVO, Cecília Meireles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
-- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
-- mais nada.
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
-- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
-- mais nada.
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