Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que não pisamos.
Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.
domingo, 25 de janeiro de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
#55 - A MATÉRIA DO SONETO, Fernando Grade
à memória de Artur António da Silva Lino
ao camarada
ao amigo
Este soneto é feito de vertigens,
curvo corvo mordido pelo fogo.
Doze bocas de cidra são virgens
que não voltam mas dizem até logo.
Há corpos enforcados em carroças,
ombros gráceis a arder por sob as tranças.
E mulheres que nunca foram moças
deitam sapos nos olhos das crianças.
Este soneto é beco de poetas,
um pouco de veneno nas tabernas;
aqui rangem fantasmas, morre gente.
Este soneto cheira a meias pretas:
é papoila de cal, sebo das pernas,
oh flor sangrada, ovos de serpente.
ao camarada
ao amigo
Este soneto é feito de vertigens,
curvo corvo mordido pelo fogo.
Doze bocas de cidra são virgens
que não voltam mas dizem até logo.
Há corpos enforcados em carroças,
ombros gráceis a arder por sob as tranças.
E mulheres que nunca foram moças
deitam sapos nos olhos das crianças.
Este soneto é beco de poetas,
um pouco de veneno nas tabernas;
aqui rangem fantasmas, morre gente.
Este soneto cheira a meias pretas:
é papoila de cal, sebo das pernas,
oh flor sangrada, ovos de serpente.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
#54 - VIESSES TU, POESIA, Sebastião da Gama
Viesses tu, Poesia,
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...
Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?
Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
-- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo foram graça, aparição, presença,
sinal...
(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?)
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
morta à primeira hora.)
Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...
Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?
Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
-- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo foram graça, aparição, presença,
sinal...
(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?)
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
morta à primeira hora.)
Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
#53 - POEMA, António Ramos Rosa
As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem,
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem,
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
#52 - OBSESSÃO, Francisco Bugalho
Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.
Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...
Sobre um lago onde, em sossego,
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.
Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...
Sobre um lago onde, em sossego,
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.
Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.
domingo, 4 de janeiro de 2015
#51 - JÁ POETA, Eduardo Guerra Carneiro
Já poeta não sou se a voz eu calo
e nesse estado estou, que é não estar.
Já poeta não sou se a voz eu ergo,
para abrir outra porta, além no espelho.
Já poeta não sou quando estou cego
e adio essas linhas, marcadas a negro.
Já poeta não sou se o tempo perco,
no novelo enredado, no vício do prego.
Por isso escrevo, entre sangue e ouro,
rasgando as cortinas feitas pelo medo.
Por isso assim escrevo, escravo das palavras,
deixando a corrente inundar o Outro.
Toda a arte poética não deixa de ser
fogo de artifício -- para o Outro ver.
e nesse estado estou, que é não estar.
Já poeta não sou se a voz eu ergo,
para abrir outra porta, além no espelho.
Já poeta não sou quando estou cego
e adio essas linhas, marcadas a negro.
Já poeta não sou se o tempo perco,
no novelo enredado, no vício do prego.
Por isso escrevo, entre sangue e ouro,
rasgando as cortinas feitas pelo medo.
Por isso assim escrevo, escravo das palavras,
deixando a corrente inundar o Outro.
Toda a arte poética não deixa de ser
fogo de artifício -- para o Outro ver.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
#50 - "Lixo: aparas de lápis, serradura, papéis", Eduardo Guerra Carneiro
Lixo: aparas de lápis, serradura, papéis
com borras de café, sangue num pano,
jornais amarelecidos, cinzas com cigarros.
E juntar a este lixo as palavras gastas,
os livros queimados, o gosto agora azedo
da bebida e o retrato da outra, preciosa
pedra de sempre mas agora: lixo.
E saber que revolver este lixo é estar
no caldeirão a misturar ouro e vulcões.
E amar este lixo, mesmo no ódio. Voltar
então às palavras mais simples. Deixar
o vento levantar a bruma da poeira
dos cavalos. Entrar nas águas
debaixo da varanda -- olhar o mar.
com borras de café, sangue num pano,
jornais amarelecidos, cinzas com cigarros.
E juntar a este lixo as palavras gastas,
os livros queimados, o gosto agora azedo
da bebida e o retrato da outra, preciosa
pedra de sempre mas agora: lixo.
E saber que revolver este lixo é estar
no caldeirão a misturar ouro e vulcões.
E amar este lixo, mesmo no ódio. Voltar
então às palavras mais simples. Deixar
o vento levantar a bruma da poeira
dos cavalos. Entrar nas águas
debaixo da varanda -- olhar o mar.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
#49 - "Na retina, no córtex, madrugada", António Barahona
Na retina, no córtex, madrugada
finalmente telex já desponta:
começa mais um livro de mão dada
ao Invisível, mais um susto cava
abismo denso ao pé da letra contra
a expectativa da serpente fascinada:
aparição de Deus à tua sombra
finalmente telex já desponta:
começa mais um livro de mão dada
ao Invisível, mais um susto cava
abismo denso ao pé da letra contra
a expectativa da serpente fascinada:
aparição de Deus à tua sombra
sábado, 27 de dezembro de 2014
#48 - E TODOS OS PÁSSAROS, João Camilo
Eles não tinham escrito os poemas que eu esperava escrever. Mas os livros deles, quem sabe se não faziam nas montras das livrarias o eco da minha própria voz? Assim iam e eram os tempos: fazer-se ouvir dava-nos por momentos, e às vezes durante a vida inteira, a ilusão de existir, de ter desempenhado um papel e ter encontrado a verdade, um destino. O país era o modelo perfeito e surpreendente dos vícios da raça: ambição, heroísmo, despique. Uma ausência dolorosa e mesquinha por detrás das palavras, e todos os pássaros voavam apenas para serem vistos a cortar com agilidade o azul do céu. Como eu tinha horror a vir a ser pó nesta terra calcinada pelo sol, e lamentava ter nascido longe da modéstia de um destino tranquilo, noutro tempo, à sombra, no meio de outros homens.
domingo, 21 de dezembro de 2014
#47 - CANÇÃO SEGUNDA, Manuel Alegre
Canto de pé no meio do país amado.
Os ventos tristes batem no meu rosto
batem no meu poema as vozes muito antigas
de não sei que desgosto sempre tão cantado
nas cantigas nocturnas do país amado.
Eu cantarei os homens assentados
nas cadeiras de chuva sobre a dor.
Dos nervos do meu canto lançarei mil dardos
eu cantarei o amor e os ombros libertados
de seus fardos. Que eu vi na dor os homens assentados.
Deixai-me ouvir os homens que falam tão baixo.
Porque não sei trair a honra de cantar deixai-me
cantar meu povo onde meu povo não cantar.
Eu quebrarei qualquer açaime e do luar farei um facho
para encher de luar os homens que se queixam baixo.
Canto de pé no meio do país amado.
Outros falem de si tecendo a frágil dor
deitados no poema entre cortinas e almofadas.
Eu cantarei o amor que sempre foi negado
às gentes ignoradas do país amado.
Os ventos tristes batem no meu rosto
batem no meu poema as vozes muito antigas
de não sei que desgosto sempre tão cantado
nas cantigas nocturnas do país amado.
Eu cantarei os homens assentados
nas cadeiras de chuva sobre a dor.
Dos nervos do meu canto lançarei mil dardos
eu cantarei o amor e os ombros libertados
de seus fardos. Que eu vi na dor os homens assentados.
Deixai-me ouvir os homens que falam tão baixo.
Porque não sei trair a honra de cantar deixai-me
cantar meu povo onde meu povo não cantar.
Eu quebrarei qualquer açaime e do luar farei um facho
para encher de luar os homens que se queixam baixo.
Canto de pé no meio do país amado.
Outros falem de si tecendo a frágil dor
deitados no poema entre cortinas e almofadas.
Eu cantarei o amor que sempre foi negado
às gentes ignoradas do país amado.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
#46 - AS PALAVRAS, Eugénio de Andrade
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Subscrever:
Mensagens (Atom)
#96 - PERSISTÊNCIA, Rui Knopfli
Desmembrado, o corpo. Apenas um rosto, a imobilidade larvar da carne e o silêncio só excedido pelo livor que, sobre as feições, vai baixa...
-
Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sin...
-
Palavras, substância, ideia, persistentes e danosos vermes da memória, em várias chamas variamente ardendo, com sôfrega raiva vos devoro...