O múltiplo sentido das permutações
do tempo que o poema permite
assombra. Uma sequência de imagens
simples, e finalmente convencionais,
a rápida sucessão das unidades dinâmicas do verbo,
combina as três perspectivas
que os filósofos dizem do eterno, do instante, e
do perene. A terra mesma se transforma,
a sombra das nuvens ao voar sobre as casas
dá repouso e abrigo à obra das nossas mãos.
Passam os anos como os dias, o dia de agora
é inteiro e completo como outrora.
Lendo, já sei, talvez nada aconteça:
vento nas folhas, água, uma estrela que cai.
Comendo a sopa quente diante da tv
a ordem da história e da sociedade não está
prevista no menu. Ainda assim são estas imagens voláteis
a razão do poema, enquanto dura o sol.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
#70 - MORDAÇA, Sebastião da Gama
Puseram-lhe na boca uma mordaça...
Mas o Poeta era Poeta
e tinha que falar.
Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue,
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.
Porém, não era já mordaça:
-- Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça, o tinham querido calar.
Mas o Poeta era Poeta
e tinha que falar.
Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue,
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.
Porém, não era já mordaça:
-- Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça, o tinham querido calar.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
#69 - "Que fazes tu, poeta? Diz! -- Eu canto." (Rainer Maria Rilke)
Que fazes tu, poeta? Diz! -- Eu canto.
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas, como aceitas? -- Canto.
E que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta? -- Canto.
De onde te vem direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? -- Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? -- Canto.
(tradução de Jorge de Sena)
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas, como aceitas? -- Canto.
E que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta? -- Canto.
De onde te vem direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? -- Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? -- Canto.
(tradução de Jorge de Sena)
domingo, 4 de setembro de 2016
#68 - "bates à porta", Carlos Nogueira Fino
bates à porta
mil vezes bates a essa porta com a voz em sangue
enquanto te encandeia a luz feroz da inocência
a iluminar-te os dedos
contra a grande incógnita da porta
o que balbucias não é ainda cântico
mas a nua lâmina onde aguardas
as primeiras estrofes ainda sem palavras
o balanço dos gonzos
o entreabrir dos lábios
o negro puro
as pupilas enormes
o remoínho ubíquo na pele e na escuridão devassada
a interrogação que lateja
quando a porta se abre
é que já pouco importa
a eternidade ficou toda e para sempre naquela pulsação
desordenada
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
#67 - A MAGNÓLIA, Luiza Neto Jorge
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me à forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria -- na metáfora --
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me à forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria -- na metáfora --
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
terça-feira, 21 de abril de 2015
#66 - ISSO, José Ricardo Nunes
(e. e. cummings)
"Isso que o realejo toca",
não a música, apenas
isso, a intensidade abstracta
de uma linguagem condenada
pela amplitude do sentido,
mas apta para garantir
um pouco de paz e suster
as vozes que fluem no vazio,
isso que guardas,
desde que tens rosto,
com sorte poderás ler
ou arrancar de ti.
"Isso que o realejo toca",
não a música, apenas
isso, a intensidade abstracta
de uma linguagem condenada
pela amplitude do sentido,
mas apta para garantir
um pouco de paz e suster
as vozes que fluem no vazio,
isso que guardas,
desde que tens rosto,
com sorte poderás ler
ou arrancar de ti.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
#65 -- POÉTICA, Cassiano Ricardo
1
Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
2
Que é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
2
Que é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
#64 - NATAL À BEIRA-RIO, David Mourão-Ferreira
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?
quarta-feira, 8 de abril de 2015
#63 - NOVA POESIA, Aguinaldo França
(Ao Amílcar Cabral)
Um dia, misteriosamente,
A Poesia perdeu-se.
E muita gente
Andou por montes e vales
Buscando-a raivosamente.
Encostas inacessíveis
Foram galgadas em vão,
Gritos e mãos para os céus
Lágrimas, sangue e suor...
E a própria vida
Foi também oferecida...
Mas a Poesia estava
Irremediavelmente perdida.
Os homens gritaram raivas:
-- Não sabiam que fazer...
Mas, de cada peito contrito,
De cada lágrima ou grito,
De cada gesto de dor,
De todo o sangue ou suor
Discretamente nascia
Uma nova Poesia.
Aguinaldo França
segunda-feira, 6 de abril de 2015
#62 - ALL OR NOTHING AT ALL, Frederico Barbosa
Tudo ou todo nada,
pedra ou furo d'água,
feito cada palavra,
lança, dardo, ferida,
em cheio nada.
De nada em nada,
o se-dizer do tudo,
feito risco na água,
onda, contorno,
reflexo de nada.
Nada feito nada,
no poema
naõ há termo meio,
meio-amor, meia palavra.
Do sem
sentido intenso
se faz um tudo atento,
feito a palavra
em cantada,
nada
feito
nada.
pedra ou furo d'água,
feito cada palavra,
lança, dardo, ferida,
em cheio nada.
De nada em nada,
o se-dizer do tudo,
feito risco na água,
onda, contorno,
reflexo de nada.
Nada feito nada,
no poema
naõ há termo meio,
meio-amor, meia palavra.
Do sem
sentido intenso
se faz um tudo atento,
feito a palavra
em cantada,
nada
feito
nada.
quarta-feira, 4 de março de 2015
#61 - A FORMA JUSTA, Sophia de Mello Breyner Andresen
Sei que seria possível construir um mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O ar e o mar e a luz estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra em que estamos se ninguém atraiçoasse proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do Universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do Mundo.
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O ar e o mar e a luz estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra em que estamos se ninguém atraiçoasse proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do Universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do Mundo.
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#96 - PERSISTÊNCIA, Rui Knopfli
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