segunda-feira, 12 de setembro de 2016

#71 - de QUARTAS MORADAS, António Franco Alexandre

O múltiplo sentido das permutações
do tempo que o poema permite
assombra. Uma sequência de imagens
simples, e finalmente convencionais,
a rápida sucessão das unidades dinâmicas do verbo,
combina as três perspectivas

que os filósofos dizem do eterno, do instante, e
do perene. A terra mesma se transforma,
a sombra das nuvens ao voar sobre as casas
dá repouso e abrigo à obra das nossas mãos.
Passam os anos como os dias, o dia de agora
é inteiro e completo como outrora.

Lendo, já sei, talvez nada aconteça:
vento nas folhas, água, uma estrela que cai.
Comendo a sopa quente diante da tv
a ordem da história e da sociedade não está
prevista no menu. Ainda assim são estas imagens voláteis
a razão do poema, enquanto dura o sol.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

#70 - MORDAÇA, Sebastião da Gama

Puseram-lhe na boca uma mordaça...

Mas o Poeta era Poeta
e tinha que falar.

Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue,
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.

Porém, não era já mordaça:

-- Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça, o tinham querido calar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

#69 - "Que fazes tu, poeta? Diz! -- Eu canto." (Rainer Maria Rilke)

Que fazes tu, poeta? Diz! -- Eu canto.
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas, como aceitas? -- Canto.
E que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta? -- Canto.
De onde te vem direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? -- Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? -- Canto.

(tradução de Jorge de Sena)

domingo, 4 de setembro de 2016

#68 - "bates à porta", Carlos Nogueira Fino

bates à porta
mil vezes bates a essa porta com a voz em sangue
enquanto te encandeia a luz feroz da inocência
a iluminar-te os dedos
contra a grande incógnita da porta

o que balbucias não é ainda cântico
mas a nua lâmina onde aguardas
as primeiras estrofes ainda sem palavras

o balanço dos gonzos
o entreabrir dos lábios
o negro puro
as pupilas enormes
o remoínho ubíquo na pele e na escuridão devassada
a interrogação que lateja

quando a porta se abre
é que já pouco importa
a eternidade ficou toda e para sempre naquela pulsação
desordenada

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

#67 - A MAGNÓLIA, Luiza Neto Jorge

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me à forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria -- na metáfora --
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.


terça-feira, 21 de abril de 2015

#66 - ISSO, José Ricardo Nunes

(e. e. cummings)

"Isso que o realejo toca",
não a música, apenas
isso, a intensidade abstracta

de uma linguagem condenada
pela amplitude do sentido,
mas apta para garantir

um pouco de paz e suster
as vozes que fluem no vazio,
isso que guardas,

desde que tens rosto,
com sorte poderás ler
ou arrancar de ti.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

#65 -- POÉTICA, Cassiano Ricardo

1

Que é a Poesia?
                        uma ilha
                        cercada
             de palavras
                        por todos
                        os lados.


2

Que é o Poeta?
                       um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                       Um homem
             que tem fome
             como qualquer outro
                       homem.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

#64 - NATAL À BEIRA-RIO, David Mourão-Ferreira

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

quarta-feira, 8 de abril de 2015

#63 - NOVA POESIA, Aguinaldo França

(Ao Amílcar Cabral)

Um dia, misteriosamente,
   A Poesia perdeu-se.
   E muita gente
   Andou por montes e vales
   Buscando-a raivosamente.

   Encostas inacessíveis
   Foram galgadas em vão,
   Gritos e mãos para os céus
   Lágrimas, sangue e suor...
   E a própria vida
   Foi também oferecida...
   Mas a Poesia estava
   Irremediavelmente perdida.

   Os homens gritaram raivas:
   -- Não sabiam que fazer...

   Mas, de cada peito contrito,
   De cada lágrima ou grito,
   De cada gesto de dor,
   De todo o sangue ou suor
   Discretamente nascia
   Uma nova Poesia.

Aguinaldo França

segunda-feira, 6 de abril de 2015

#62 - ALL OR NOTHING AT ALL, Frederico Barbosa

Tudo ou todo nada,
pedra ou furo d'água,
feito cada palavra,
lança, dardo, ferida,
em cheio nada.

De nada em nada,
o se-dizer do tudo,
feito risco na água,
onda, contorno,
reflexo de nada.

Nada feito nada,
no poema
naõ há termo meio,
meio-amor, meia palavra.

Do sem
sentido intenso
se faz um tudo atento,
feito a palavra
em cantada,

nada
feito
nada.

quarta-feira, 4 de março de 2015

#61 - A FORMA JUSTA, Sophia de Mello Breyner Andresen

Sei que seria possível construir um mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O ar e o mar e a luz estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra em que estamos se ninguém atraiçoasse proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do Universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é o meu ofício de poeta para a reconstrução do Mundo.

#96 - PERSISTÊNCIA, Rui Knopfli

Desmembrado, o corpo. Apenas um rosto, a imobilidade larvar da carne e o silêncio só excedido pelo livor que, sobre as feições, vai baixa...